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Blog de Benedito Machado


             AS NARRATIVAS HERÓICAS

 

        Não há coisa mais comum do que falsificar narrativas, por conta de interesse próprio, por conta de visão distorcida, por conta de ideologias. O que pode saber um repórter, acostumado a saborear seu churrasco e tomar seu chope gelado, sobre a vida, o pensamento e os objetivos de um favelado, mal-educado, mal alimentado e maltratado pela vida? No entanto, diariamente temos notícias e informações, em nossos órgãos de imprensa sobre aquele negro que roubou o supermercado, aquela mulata que enganou o turista, aquele garoto mal vestido que assaltou a senhora idosa.   

        É o que nos oferece a imprensa, cotidianamente. Entretanto, sem esquecer tudo isso, mas juntando uma coisa e outra, porque erigimos em heróis pessoas que, sabidamente, deram murro em ponta de faca, para usar uma expressão simples, quando, criticam ou se opõe a situações acima de suas pobres possibilidades, fora do alcance de suas mãos. Chamamo-las heróis e heroínas, depois do fato consumado, isto é, depois que o mal que apontavam se voltou contra elas e as aniquilou. Nós as exaltamos, mas elas é que se estreparam.

        Não vou citar casos, as revistas e jornais não cansam de exaltá-las e publicar seus casos. Assim como os livros exaltam as proezas de nossos heróis que se sacrificaram pelo nosso bem, morreram na defesa de seus e nossos ideais. É muito cômodo saber sobre tudo isso, sem precisar fazer maior esforço do que percorrer algumas linhas impressas, em revistas e jornais. Mas quem se foi é que levou o peso da história para o túmulo, depois de passar por sofrimentos que nem podemos imaginar: nós apenas nos emocionamos pelo seu heroísmo, pela sua audácia, pelo seu desprendimento.  



Escrito por B.Machado às 14h10
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                    A HORA DA GANÂNCIA

 

        Comecei a trabalhar no comércio de produtos farmacêuticos em sua ”maré montante”. Criavam-se laboratórios como se montam bares. Era um emprego bem remunerado. Uma vantajosa união entre a química e a medicina havia posto à disposição dos profissionais um arsenal de recursos, baseado no progresso das drogas e na facilitação das bulas. As doenças também ganharam status no rol das preocupações diárias. Pequenos transtornos intestinais, ou incômodas coceiras noturnas deixaram de ser percalços transitórios ou “coisas da vida” e ganharam status de “encostos”, a serem urgentemente removidos.

        Vendedores e propagandistas de laboratórios passaram a receber treinamento antes só reservados a enfermeiros e socorristas, aprendendo sobre os sinais e sintomas das doenças e as possíveis providências para debelá-los. Dessa maneira, numa curiosa inversão de papéis, deixaram o papel de repassadores de informações e foram promovidos a conselheiros de médicos, muitos deles da velha guarda, inexperientes com o súbito progresso da química dos medicamentos.   

        A consolidação desse movimento revolucionário, nos domínios de Pasteur e outros luminares da ciência, fez esquecer o passado e apontou um futuro de maravilhas, para a saúde e a longevidade humana, faróis atrativos que ajudaram na dura tarefa de esquecer as mágoas de viver neste velho “vale de lágrimas”!



Escrito por B.Machado às 10h17
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             OS PADRES LARÁPIOS

        A coisa foi tão surpreendente que até nem prestei atenção ao local. Só sei que foi no Brasil, no interior do Brasil: uns padres se apoderaram do dinheiro da paróquia, para fazer não sei o quê, não sei onde. Padres também são gente, eu sei, mas são gente um pouco diferente de nós, como o são os militares e os astronautas, os psicopatas e os desvairados.

        Um padre ladrão parece uma contradição em termos, assim como um perneta campeão de corrida, ou um ancião, finalista num torneio de desempenho sexual (não sei se existe ou existiu, mas é concebível, e, pois, mencionável). Acostumamo-nos a ver no sacerdócio o modelo a ser imitado, ou mencionado, quando nos passa pela cabeça fazer um sermão a crianças traquinas ou a marmanjos de mau caráter.

        Portanto, eis a notícia assustadora: fugindo ao modelo que nos inspirou, eis que uns sacerdotes desse interiorzão brasileiro metem a mão no dinheiro da paróquia e, para o bem da humanidade, são pegos com a boca na botija. A justiça está feita, mas o espanto continua. Esqueceram de Deus? Passaram tantos anos no seminário para chegar a esse ponto? E os votos? Os sacrifícios? Foi um ataque súbito e passageiro, ou uma virada da personalidade, na direção contrária à que vinham navegando?  



Escrito por B.Machado às 14h08
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        LIDERANÇAS (O CASO MARIELLE)

        O fenômeno, melhor dizendo, o fato “liderança” não é uma exclusividade do homem pós-troglodita, melhor ainda, não é sequer um fato só humano. É facilmente observável no mundo animal, desde as insignificantes formigas, até o nada ocultável elefante. É uma posição honorável, surgida em função da necessidade do grupo ou da ambição, capacidade ou vocação de algum de seus componentes, de indicar caminhos, estimular o movimento ou, simplesmente, tomar a iniciativa.

        Marielle, a última vítima do conflito entre a Lei e o Crime, foi uma moça articulada e corajosa, que tomou a si a missão de criar rotas mais viáveis para sua comunidade, no intrincado espaço social, essa mistura desentendida dos necessitados, remediados ou donos do poder. Visto nas páginas sociais dos órgãos de imprensa, essa posição é, além de honorável, doadora de prestígio, admiração e, até, para alguns, fortunas. No, entanto, por baixo de seu panorama de brilhos e lantejoulas paira um abismo de ganância, frustração agressividade, por sobre o qual se equilibram (bem ou mal), ou desequilibram, aqueles que escolheram esse caminho, para redimir a si e aos seus semelhantes, dos percalços inerentes à comunidade humana.

        Calculando o panorama desse emaranhado humano, até pela exígua fresta do noticiário, não dá para confiar que a tarefa vai ser fácil. Assim, quem entra pela porta que lhe dá acesso, não recebe uma saudação amigável, mas, se souber interpretar os sinais, descobre que lhe estão enviando mensagens de advertência, como aqueles postos nos lugares perigosos, por onde vão navegar viajantes ousados, ou penetrar mergulhadores destemidos!  



Escrito por B.Machado às 09h50
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             A IRRELEVÂNCIA DO CARGO   

        A eleição de Donald Trump para a presidência do mais poderoso país do mundo, assim como a de Dilma e Lula, para a presidência do Brasil, mostra a irrelevância do cargo, nos dias atuais. Um homem   rico e boquirroto, uma mulher tatibitate e um sindicalista afoito,  ocupando a mais elevada posição, na vida política de seus respectivos países, seriam surpresa em outros tempos, quando isso significava, mutatis mutandis, a responsabilidade do comandante de um imenso e poderoso transatlântico.   

        Mas as coisas mudaram, em política, como em outras profissões. Já se foi o tempo em que os advogados escreviam seus pareceres sem recorrer, a cada parágrafo, a calhamaços jurídicos, ou em que farmacêuticos misturavam sais terapêuticos, sem ter à vista, a fórmula prescrita por alguém mais bem informado. Em nossos dias, quanto mais alta é a posição de um sujeito, numa empresa ou numa repartição pública, bem como na direção de um pais, menos preparado ele precisa ser, graças ao exército de auxiliares que o acompanham, naquilo que deveria ser um encargo, mas se tornou, apenas, um cargo, isto é, uma posição de relevância, sustentada pela  engrenagem pré-montada que a faz funcionar.  



Escrito por B.Machado às 07h17
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            ENQUETE REVELADORA

        Artigo da Revista Veja, de 14 de março último, narra como, em 2013, foi feita uma pesquisa na Universidade de Ohio, com jovens heterossexuais, divididos em dois grupos, sendo que um deles foi ligado a um detector de mentiras, falso, mas apresentado como verdadeiro. As perguntas eram relacionadas ao comportamento sexual deles próprios.

        “Os rapazes ‘sem aparelho’ disseram ter se relacionado com um número maior de parceiras do que os ‘com aparelho’, e as garotas ‘sem aparelho’, com um número menor de parceiros, do que as ‘com aparelho’. Quer dizer, diante de seu semelhante, a pessoa tende a ser “mais ele”, ao passo que, diante da “máquina” pensam que devem ser mais “verdadeiros”, pois, esta, além de impessoal, parece mais apta a detectar suas mentiras.



Escrito por B.Machado às 04h40
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                    O VÍCIO SEM GRAÇA

        Instituto de Regulação e Controle da Canabis, vinculado à Junta Nacional de Drogas! Já viram coisa assim, tão esquisita? Pois isso existe no Uruguai. Quer dizer, no país vizinho existe uma “Junta”, isto é, um grupo de sujeitos sérios, que tratam, em nível nacional, do plantio, venda e uso de drogas, em especial da “Canabis”, a querida (dos viciados, naturalmente) maconha. Ora direis, o que há de esquisito nisso, se também a cachaça, o vinho e o meretrício são regulamentados, quase no mundo todo?

        Certo, não há nada estranho, mas que é gozado, isso é! Para quem é, ou foi, viciado, ou para quem gosta de fazer as coisas “no escurinho”, nada mais estranho do que ver sua mania ser regulamentada. Aliás, pensando bem, até para fins de compreensão banal, não existe coisa mais estranha do que um vício regulamentado. Parece, assim, como um pecado permitido. Imaginem o Papa decretando, numa daquelas comunicações de nomes estrambóticos, que “se o pecado for cometido com boas intenções, ele estará automaticamente perdoado”.

        “É o Paraíso”, dirão os “pecadores”; “é o Inferno”, decretarão os crentes inflexíveis. Houve um tempo em que o adultério era castigado com pedradas mortais, hoje é “carimbado” com risinhos e piadas. Não vamos chegar ao tiroteio como diversão pública, ou o assalto aos bancos como espetáculo, mas que já avançamos um bocado, nessa direção, não se pode negar!



Escrito por B.Machado às 11h37
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                    PENSAMENTOS

        (Extraídos do livro “IGUAPE, CIDADE SANTUÁRIO”

- Programar o futuro com atenção retrospectiva é a maneira de continuar caminhando sem partir a cada momento da estaca zero.

- O conhecimento do passado pode maximizar nossas emoções, agregando valor e sentido à vida.

- As comemorações patrióticas e as festas religiosas permitem ao povo apenas uma participação alienada na satisfação e alegria dos donos do poder.  

- A prosperidade econômica estimula a busca imediata da felicidade mundana, debilitando a expectativa da bem-aventurança pós-mortem.

- O encanto das lendas tem melhor aceitação pública do que a frieza dos fatos.



Escrito por B.Machado às 18h01
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            ESTRANHEZA

        Não vejo o mundo com naturalidade. Embora a idade já devesse ter-me ensinado seus truques e suas armadilhas ocasionais, descubro-me, constantemente espantado com os mais corriqueiros incidentes do dia-a-dia. Talvez seja próprio da vida e dos fatos, que eles sejam sempre novos, afinal como diz um velho adágio, a “História só se repete como farsa”, isto é, como uma imitação ridícula de si própria, nunca como autêntica cópia.

        Mas, repito, idade nem sempre ensina bem as coisas. De certa maneira, isso é bom: não seria fastidioso assistir sempre os mesmos espetáculos? Ou talvez, e aqui entra o ser humano “na dança”, não é ridículo pessoas já “fora do jogo” tentarem uns “dribles” fora do compasso? Mas, feliz ou infelizmente, o ser humano é insaciável em sua busca de novidades, ou ilusões, e, então, no “teatro da vida”, o que assistimos é a patética tentativa da “invenção contínua”, que redunda, muitas vezes, no triste espetáculo da inútil repetição de “originalidades”!   



Escrito por B.Machado às 10h41
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