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MOVIMENTO POPULAR E PEC 37 Pode ser que uma coisa não tenha nada a ver com a outra, mas pode ser que tenha. Eu aposto nesta última hipótese. Essa proposta de anular o trabalho do Ministério Público só pode ter sido inspirada por políticos ladrões. Não políticos interessados no seu papel de representantes do povo, mas políticos ladrões mesmo! Para o cidadão, quantos mais órgãos públicos estejam à caça de desonestos que infestam a máquina governamental, melhor. Qual o motivo secreto que leva um deputado a afastar os investigadores do Ministério Público de sua cola? Só pode ser por medo de ser pego em flagrante. Nenhum político honesto pensaria em coibir investigações sobre maracutaias no serviço público. Então, alguns distraídos ficam se perguntando o porquê das manifestações públicas que sacodem o país. Basta ler os jornais, verificar o que estão fazendo no Senado e na Câmara Federal, para qualquer um se revoltar. O país que assiste “bestializado” o movimento popular é o Brasil surdo-mudo, o Brasil que troca uma informação de cidadania por um jogo de futebol, ou, o que é pior, uma bolsa-família por um voto em um político desonesto.
Escrito por B.Machado às 18h48
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REVOLUÇÃO E OMELETE Não se faz uma omelete sem quebrar os ovos. Não se faz um movimento de protesto sem quebra-quebra. É verdade que no movimento há muita gente pacífica, que não aprecia muito os baderneiros que se infiltram. Mas são os baderneiros que fazem tremer os mandatários e os obrigam a pensar e temer os movimentos populares. Os corruptos e demagogos instalados no poder não se preocupam com as passeatas. Até são capazes de participar delas. Mas eles têm receio daqueles que os ameaçam com pedradas. Durante a Revolução Francesa inventaram a guilhotina, para facilitar o corte de cabeças. Foi a guilhotina e não o clamor do povo esfomeado que fez tremer os “cabeças coroadas” que, por sinal, acabaram sem as coroas e sem as cabeças. Os discursos da Presidente, elogiando o movimento, mas criticando os excessos, é ridículo. Afinal, não foi o grupo revolucionário dela que assaltou o apartamento da amante do Adhemar de Barros, para roubar um cofre cheio de dólares? Quem é ela para criticar o exagero do movimento popular? O assalto ao Palácio dos Bandeirantes fez tremer o Governador “Picolé de chuchu”. Ele é um bom sujeito, mas precisa ser mais que isso para promover uma limpeza na sujeira deste país. Também o Governador do Rio de Janeiro está tremendo nas canelas, com aquelas cem mil pessoas na passeata. Baderneiros jogaram cadeiras históricas nas ruas, pixaram paredes, ateara incêndios, sob protestos dos que desfilavam em paz, apenas com seus cartazes nas mãos. Mas não há como evitar isso. E também não se pode dispensar a baderna. Ela é o brilho dos desfiles de protesto. Sem esse “brilho”, os corruptos instalados no poder aplaudem os desfiles, com a maior cara de pau.
Escrito por B.Machado às 15h56
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MACACO É GENTE ENFEITIÇADA Dia que a gente amanhece arreliado não dá nada certo. Quando peguei a espingarda pra caçá, minha mulhé já me apoquentou com a informação de que precisava arrumá o fogão, que tava cuns tijolos sorto e a trempe não se aprumava direito, na hora de botá as panela. Não dei corda. Fui saindo, fazendo de conta que não uvi nada. Mas isso já me marcô os nervo e saí meio sem parpite de que ia tê uma boa caçada. Mas também se eu não fosse providenciá uma carne, o armoço ia ser bem pobrinho, fejão com farinha e arrois, comida mixuruca, a mulhé e as criança recramando e eu também desgostoso com a vida. Uma veis no mato, comecei meio co pé esquerdo. Corri atrás dum tatu e o danhisco se escondeu sem que eu atinasse onde estava o buraco. Atropelei um porco do mato e ele sumiu, por encanto, atrás dumas bananeiras. No fim, desacorçoado, dei um tiro a esmo, pra cima duma sabiá, tiro besta, que mesmo se acertasse, uma sabiá só ia provocá briga em casa, um tantinho de carne sem valia, que não dava nem pra uma, quanto mais pra quatro pessoas. Até que fiquei alegre de não tê acertado. Pra piorar as coisa, ouvi um ronco de onça que me arripiô os pelos. Parecia longe, mas nesses bichos a gente não confia, nem de longe, nem de perto. Com as coisa indo desse jeito esculhambado, ainda me aparece aquela macaca. Por quê, logo naquele dia vai me aparecê esse bicho? Eu naquela necessidade de caçá um animar, a mulhé esperando em casa, recramando do fogão, eu tendo que expricá minha saída, os bichos zombando de mim, a onça me assustando, e agora me aparece esse animar de jeito, e eu tão precisado que atiro até numa sabiazinha! Quando vi aquele bicho, parei, e minha cabeça reboleou com tanta ideia, lembrança, que eu fiquei aturdido. Olhei pra cima e o bicho me olhava, parece que adivinhou que eu ainda não tinha resorvido o que fazê e me dava tempo, pra eu decidi ou desisti. A causa de tanto pensamento molesto eram as conversa e sabedoria correntes da gente que eu conhecia, a respeito do bicho macaco, sobre sua manera de ser e o jeito como a gente devia tratá com ele. Compadre Serapião sempre insistia que macaco não é bicho comum, macaco é gente, é pessoa enfeitiçada, que um dia vai vortá a ser home e mulhé como nóis mesmo, depois que pague os pecados que cometeu, as marfeitorias contra arguma pessoa que tinha poder sobre as coisas do mundo e que provocô sua transformação. A vorta ao estado de gente pode está perto, é feita em partes e a gente nunca sabe em que parte está, pode ser que esteja perto, e fazê quarqué coisa errada com ele pode já ser o feito com uma pessoa. Essas coisas tudinhas redemoinhavam na minha cabeça e mais, quando olhei o bicho, lembrei que também me disseram que prá vortá ao estado de gente, o macaco deve acompanhá uma pessoa, pra copiá seu jeito e assim facilitá sua vorta. E a macaca parecia mesmo prestá atenção em mim, intrigada, porque eu não saía do lugá, não resorvia nada. Mas então até que resorvi. A macaca tava me olhando de lado, meio de costas como se pusera, e eu achei que podia sê que aquelas coisas que me falavam eram conversa de gente velha, eram coisa do tempo antigo, coisas que ficaram na cabeça e precisavam ser trocadas por ideias mais importantes. Foi aí que eu dicidi, afinar a panela tava esperando no fogão, o pobrinho do feijão com arroz e farinha precisava de mistura, a mulhé não ia recramá por eu andar no mato, as criança iam ri de barriga cheia. Então peguei a espingarda, levantei o cano pra cima e mirei bem no meio da macaca. Daí aconteceu a coisa mais triste de minha vida: a macaca virô de frente, tava cum macaquinho nos braço, que eu não tinha visto, botô o bichinho à mostra, fez uma cara de tristeza que me dexô bestando com aquela espingarda pro ar. Tirei o dedo do gatilho, fui arriando o braço devagar, o coração sumido de mole, o suor escorrendo na testa, uma casmurrice que apagou minha fome, minha vontade de caçá, só pensei em vortá pra casa, esquecê aquele dia, esquecê aquele olhar da macaca, esquecê aquele bichinho no seu colo, que eu quase acabei com um tiro certo! Do jeito que aquele bicho me olhô eu tive a certeza: não ia matá um animar, ia matá uma mulhé, ia acabar com a mãe de uma criança iguar a um filho meu, e, depois, como é que ia encará a vida com um pecado desses? Como é que ia expricá pra todo mundo o que eu fizera? Como é que ia encará o padre na Igreja, aqueles santos todos que deram exempro de como vivê de conforme com os mandamentos de Deus? Arreneguei meu gesto e só não joguei a espingarda fora porque é com ela que alimento minha mulhé e meus fios. Mas dessa vez em diante jurei que nem vou olhar pra macaco, nem macaca. O negócio certo é esperá que eles virem gente outra veis!
Escrito por B.Machado às 11h44
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A VALSA O clarinete deu o sinal de partida. Foi acompanhado pelo bumbo e tarola, seguidos pelos acordes de violão. Antes que todos os ouvidos se inteirassem de que se tratava de uma valsa, que logo recebeu uma golfada de toques sentimentais do saxofone, um rapaz alto, de summer, gravata borboleta, calça e sapatos pretos, altura de jogador de basquete e andar de militar, atravessou o salão, vindo da porta principal, perto do bar. A surpresa foi tão grande que o prefeito, que já fizera um movimento em direção à primeira dama, em sinal de que iriam dançar, estacou a meio caminho, fascinado, mais do que surpreso ou indignado, por aquela aparição súbita que, petulante, lhe tomara a dianteira. Acompanhando a perplexidade e a curiosidade, estampadas no rosto estático da autoridade, os demais cavalheiros permaneceram em seus lugares, aguardando providências de ordem superior. As damas, na expectativa, já em pose de saída de suas cadeiras, esticaram e torceram o pescoço, mirando o alvo móvel. O ágil e elegante rapaz parecia ter sido treinado para enfrentar aquele itinerário minado por olhares curiosos e perplexos. Logo, numa súbita intuição, todos os espectadores descobriram seu alvo e intenção: o bando de moças que conversava e ria, num dos cantos do salão. Uma delas, percebendo sua aproximação, parou e sua surpresa e silêncio se transmitiram como uma corrente elétrica a todas as suas companheiras. O elegante moço se aproximava. Ao todo, havia ali oito moças, cada qual mais graciosa e elegante, algumas até bem bonitas. Entretanto, uma delas se destacava, não pela sua discreta beleza, feita mais de charme e vivacidade do que de lindos traços, mas pela altura, altivez, energia e bom humor, que transpareciam em cada gesto, em cada palavra, em cada riso de sua boca bem torneada. As moças, que já tinham parado de chilrear quando o cavalheiro desconhecido passara do meio do salão, agora estacaram, como numa foto, os olhares fixos na figura que se aproximou e se dirigiu a uma delas, exatamente àquela moça alta, cheia de energia e charme: - A senhorita me daria a honra desta dança? - Pois não! – ela respondeu de pronto, sem pensar. Dias mais tarde, Maria das Graças descreveria aos seus amigos, amigas e familiares, que aqueles segundos, entre a chegada do rapaz, o convite, sua resposta e a saída em rodopios pelo salão, foram os mais longos de sua vida. Primeiro, teve que refrear seu costumeiro bom humor, para não rir, do “me daria a honra desta dança”, fórmula gentil que já escasseava até entre os mais velhos, quanto mais entre os jovens; ao mesmo tempo, teve que armar um discreto sorriso, para responder condignamente à gentileza daquele moço à sua frente, tão alto e elegante, além do mais, “de fora”, o que lhe dava um valor apreciadíssimo entre suas amigas. Sua surpresa maior, entretanto, foi ter sido a eleita do momento, já que, na sua modesta percepção, reconhecia ser a menos bela, embora isso não a inibisse, nos furtivos jogos de salão. Mas, com toda sua modéstia, ela estava longe de ser um caramujo em sua concha. Passada a surpresa, já estava de pé, então foi endireitar-se, e deixar-se invadir pelas mãos, punhos e braços do estranho, em cujo ombro sua mão descobriu a rigidez de uma boa musculatura, enquanto o lilás de seu vestido envolvia a alvura do elegante paletó de summer. Como os “cisnes do lago” de Tchaikovski, os dois deslizaram graciosa e agilmente pelo salão, sob os olhares atônitos de uma plateia mesmerizada. O sentar-se do prefeito foi o sinal para que ninguém mais saísse de seus lugares. Os músicos se animaram, o saxofone alteou seu canto, a clarinete subiu o tom, o violão ampliou seus acordes, bumbo e tarola se esmeraram nos toques. Com o salão livre de dançarinos, o par de jovens revoluteou à vontade, descrevendo um itinerário livre, pelas beiradas, num sentido, variando pelo centro e retomando as beiradas, em outro sentido, para então repetir os lances. O salão vazio, posto à sua disposição, facilitou-lhes os caprichos. Como a autoridade máxima da cidade se dispôs a assistir, em vez de participar da dança, todos os cidadãos, por imitação, respeito ou servilismo, se submeteram à condição de espectadores. Com o salão livre, o belo casal redobrou em sua galhardia, para satisfação geral dos sócios do Clube. Parecia que um espetáculo teatral tinha irrompido no salão. Ninguém reclamou do privilégio dos jovens dançarinos, nem se sentiu relegado a segundo plano. Todos pareciam satisfeitos pela oportunidade de apreciar aquela demonstração de agilidade, arte e beleza, propiciada, de surpresa, por um jovem desconhecido, acompanhado por uma moça da cidade. Quando terminou a valsa, caprichada e prolongada, o rapaz alto em seu paletó summer, desligando-se da dama, fez-lhe uma mesura e a acompanhou até o seu lugar. Como um cavalheiro dos velhos tempos, agradeceu o seu par, inclinou-se, beijou-lhe a mão e despediu-se. De repente, o respeitoso silêncio foi interrompido por uma salva de palmas. O prefeito havia tomado a iniciativa dos aplausos, acompanhado por todos os presentes. As gárrulas mocinhas que receberam sua privilegiada companheira abraçaram-na em grande alvoroço e logo acompanharam todo o salão, em demorado aplauso, enquanto o cavalheiro desconhecido se afastava, retomando o mesmo caminho por onde entrara no salão, sem falar uma palavra, apenas sorrindo. A plateia recomeçou, lentamente, a se mover de seus lugares. O prefeito, que continuava sentado ao lado da primeira dama, aguardava, naturalmente, que os cidadãos viessem à sua presença, com seus comentários, dúvidas e perguntas. Foi então que, ocupados como estavam em transformar o fato presente em história para a posteridade, nem perceberam que o galante rapaz havia saído pela mesma porta que entrara, tomara a direção do bar e, para espanto de quem ali estava, descera as escadas e desaparecera na noite. Logo que a notícia dessa fuga de conto de fadas começou a correr, pelo clube, um ar de incredulidade e espanto tomou conta de todos. “Afinal, o que é isso?” – Perguntavam-se. Ninguém tinha uma resposta pronta, então alguém comentou, em voz baixa: “Parece a lenda do peixe-boi, que surge, em forma humana, para seduzir as mocinhas”. Mas logo o deboche apagou a lembrança. O que ficou, mesmo, do fato, foi um resto de visão maravilhada, das mulheres, e de perplexidade, dos cavalheiros.
Escrito por B.Machado às 13h48
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UMA HISTÓRIA DE AMOR EM DUPLICATA Ronaldo (os nomes verdadeiros dos personagens desta história não serão revelados) veio a Iguape numa época em que a cidade começava a despertar para os negócios com terras. Empresas imobiliárias vinham avançando pelo litoral paulista, desde os limites do Rio de Janeiro, passando pela Baixada Santista, e agora estavam nos limites desta cidade, já perto da fronteira do Paraná, onde atuavam outras empresas. Afonso não veio num voo cego: tinha instruções, recomendações e credenciais, incluindo apoio financeiro, para pesquisar, assumir compromissos e iniciar negócios, por conta de uma empresa paulistana, já calejada de negócios no ramo imobiliário. Entre as recomendações que trazia, a principal era a discrição: negócios imobiliários costumam atrair aventureiros, curiosos, pilantras e mexeriqueiros, assim, ele começou por não se hospedar em hotéis conhecidos, mas alugou um quarto na casa de uma viúva, com a qual um senhor de sua empresa tinha alguma relação de família. A cidade era pequena, assim, mesmo que se dissesse que a casa de Da. Valéria ficava no “bairro tal”, era bem perto do Centro da cidade. Ronaldo, solteiro, vinte e poucos anos, era natural que, mesmo sem relaxar em seus afazeres profissionais, iniciasse uma entretecida rede social, que começou com amigos, enfeitou-se de amigas, incluindo algumas “amizades coloridas”. Este último item acabou “esquentando” mais e logo ele se viu num namoro sério, com uma bonita garota, Elenira, incluindo “sofá da família” e passeios pelo morro e pela praia. O romance chegou a um ponto em que ninguém mais duvidava de que aquilo ia acabar em casamento. Ronaldo já se dispunha a trazer seus pais para conhecer a quase noiva e sua família, quando aconteceu o provável mas imprevisível: a Da. Rosinda, a viúva locatária de Ronaldo, cometeu a imprudência (ou era coisa planejada?) de comentar com uma amiga fiel que dormia todas as noites com seu inquilino! A notícia correu pela cidade com um rastilho de pólvora. Ronaldo que tinha ido ao Itimirim para ver um sítio, quando voltou já soube da novidade no Porto da Ribeira. Apavorado, sem saber que providência tomar, sem coragem de enfrentar quem quer que fosse, porque ia ter que se justificar (explicar era impossível) muita coisa ao mesmo tempo, ali mesmo, no Porto, tomou uma resolução: chamou um taxi, passou pela pensão, fez as malas e foi para Registro. Lá tomou um ônibus para São Paulo, onde se preparou para o epílogo do caso, pelo telefone e pelo Correio. Nesse tempo, a Internet era um sonho de cientistas malucos. Bem, a coisa não terminou tão mal como se prenunciava, no início. Ronaldo mandou cartas e mais cartas, para sua Elenira, com justificativas, pedidos de perdão, explicações, juras de amor, enfim, toda enxurrada de palavras bonitas e promessas mil, experimentada em todas as crises de amor, desde Adão e Eva, passando por Romeu e Julieta, Lampião e Maria Bonita e outros que tais. A questão é que sua encrenca tinha vindo em duplicata: não podia deixar de dar explicações e pedir desculpas à suave e hospitaleira Da. Rosinda, embora toda encrenca fosse resultado de sua indiscrição, mas ao mesmo tempo deixava claro que aquele romance clandestino chegara ao fim. Mandou-lhe uma carta cheia de salamaleques, discreta, respeitosa mas reticente, embora com uma puxadinha afetiva: “nunca esquecerei de sua amizade” – pensou em dizer “amor”, em vez de amizade, mas desistiu; era exagero! Enfim: Ronaldo e Elenira, por consenso entre as duas famílias, casaram numa Igreja, em São Paulo, com poucos convidados de Iguape! Era preciso passar uma borracha no passado...de Ronaldo, bem entendido!
Escrito por B.Machado às 16h26
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REVOLTA...POR QUE? Centenas, milhares de pessoas movimentam-se nas ruas, em várias capitais do país, contra o aumento da passagem da condução. Essa é a fachada do fato. Então, nota-se que, também coletivamente se dão os mesmos fenômenos individuais: o patente nem sempre reflete o camuflado, o que se vê, nem sempre expõe o que é. Por que uma pessoa iria sair de casa e expor-se aos riscos de uma correria em público, por meros 20 centavos? E como é que esse grito de guerra se deu de uma maneira tão ampla, por todo o território nacional? Mas, afinal, quebrar vidraças de bancos ou pichar veículos e paredes tem alguma coisa a ver com aumento de passagens? Pelo menos dá solução a isso? Repetimos, aqui, o mantra de que as aparências enganam, não só nos indivíduos como nas multidões. E isso não quer dizer que uma multidão reflete, de maneira apenas multiplicada o que uma pessoa pensa. Nada disso, o comportamento coletivo obedece a outros impulsos, funciona sob outras leis. Mas o fato de tantas pessoas, de uma hora para outra, se manifestarem de uma maneira, digamos homogênea, em uma revolta, embora uns sejam mais agressivos que outras, demonstra algo sobre a existência de fatores encobertos, que cabe ao sociólogo ou psicólogo social desvendar. O que estamos querendo dizer, afinal, é que esses fenômenos mais dramáticos, da vida comunitária, devem nos guiar, quando queremos entender, mesmo os mais simples acontecimentos da vida relacional, em sociedade. Quando digo “queremos entender” quero significar que não nos devemos levar pelas aparências e pela primeira explicação, ou a explicação dos mais “experientes”, aqueles que já viveram muito ou viram muitas dessas coisas acontecerem. Na verdade, existe uma “chave” para explicar os fenômenos psicológicos e sociais. Eles foram estudados e discutidos por muita gente. É preciso procurar as fontes desse conhecimento e tomar consciência de sua verdade, não ficar acreditando em palpites dos sabichões de última hora.
Escrito por B.Machado às 12h26
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O INDIVÍDUO, O GRUPO E A MASSA Uma das mais importantes recomendações do pensamento sociológico é que os fenômenos sociais (de grupos, coletividades, multidões) devem ser tratados em nível sociológico, não psicológico. É difícil entender um indivíduo, separadamente, quando ele está envolvido numa ação coletiva. Entender, quero dizer, o acompanhamento lógico de seus pensamentos, suas intenções, seu raciocínio, seus objetivos finais. O movimento popular contra o aumento das passagens de ônibus em São Paulo (apenas 20 centavos), que nem de longe se compara ao aumento do preço do tomate, para só tomar um item da economia doméstica, torna-se incompreensível, se o ponto de referência for a psicologia dos revoltados. Fala-se em vandalismo, em incoerência, etc. com vistas, naturalmente, ao dia-a-dia de um indivíduo civilizado. O movimento, por si, que em pouco tempo alcançou um nível de multidão, ficou mais estranho (repito: se o entendimento partir da psicologia dos indivíduos), quando se repetiu no Rio de Janeiro, Porto Alegre, e outros centros menores. Quando irrompeu o “movimento de maio”, em Paris dos anos sessenta, o filósofo Jean Paul Sartre também se mostrou perplexo e desentendido. Apesar de bastante articulado na rede do pensamento moderno, na área do comportamento, que ia do Behaviorismo americano à Psicanálise de Sigmund Freud, Sartre escreveu aleatoriamente, como se fosse um jornalista comum, porque não tinha palavras nem explicações, no ideário circulante, que pensava o comportamento humano, pessoal e coletivo. Lênin não era muito versado em Psicologia e, como os comunistas em geral da época, considerava algumas áreas do estudo do pensamento como um luxo burguês, que procurava justificar as ações dos privilegiados de classe. Entretanto, tinha uma intuição a respeito dos movimentos coletivos, falando numa “massa” abstrata, que era possível comover e mover, a partir de certas palavras de ordem que tocavam pontos sensíveis, em todas as pessoas. Tenho ouvido muitas bobagens tentando explicar todo esse rebostelho, que se repete nos noticiários televisivos e recebe análises de todo tipo, em jornais e revistas. Eu digo “bobagens” não em comparação com alguma ideia genial de minha autoria, mas em vista da importância do fenômeno, focalizado, quase sempre sob um prisma supérfluo da visão imediata, do “vandalismo”, “incoerência”, “ação de marginais”, etc. Como diz um ditado popular, não muito elegante, mas bem expressivo: “O buraco é mais embaixo!”
Escrito por B.Machado às 11h49
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SITUAÇÕES E TIPOS HUMANOS Conheci um sujeito que tinha um grande talento literário, era homossexual enrustido (no armário, como se diz) e se apaixonara por uma moça que, além de não lhe dar bola, zombava dele, de seu jeitão desajeitado. O contraste homem “homossexual/apaixonado por mulher” faz parte dos paradoxos do ser humano. O que eu chamo de jeitão desajeitado estava ligado a muitas coisas: sua conduta social, seu modo de se vestir, suas reações às banalidades do dia-a-dia. Enfim, um tipo que só não era marginalizado porque vivia num meio estudantil razoavelmente educado. O que fazer, diante de uma pessoa assim? A psicoterapia tem suas soluções, mas está longe do gesto “abracadabra”. É preciso, no caso, o uso da velha fórmula “tempo e paciência”. Homossexualismo não se cura, pois não é doença, mas uma escolha pessoal com uma forte base fisiológico-genética. Paixão (por homem ou mulher) pode ser alimentada ou não, mas de qualquer maneira, é uma emoção tão desejável para qualquer ser humano normal que, quando surge, mesmo que o objeto não seja o ideal, ninguém deseja perder. Bem, como se diz, o tempo passou! O que aconteceu com o tal sujeito? Primeiro, tornou-se um escritor dedicado, com razoável talento; segundo, saiu do armário e sentiu-se, enfim feliz, na sua escolha; terceiro: esqueceu a paixão sem reciprocidade. Continuou desajeitado, mas ninguém critica um artista desajeitado. Enfim, realizou-se na vida. O que se conclui de tudo isso? Podemos dividir a resposta em poucos itens: 1) O tempo é o senhor dos destinos. A frase é meio poética, mas cheia de sabedoria. É preciso esperar que as horas, os dias, os anos fluam, para que os ingredientes de que é feita a vida se misturem, de modo conveniente. 2) É preciso distinguir as coisas que se podem mudar, daquelas que, por sua natureza, são imutáveis. 3) Aquilo que hoje parece defeito, amanhã pode se mostrar uma qualidade; o sentimento mal aplicado numa época (a paixão mal direcionada) mostra um potencial emotivo que nunca perde sua validade e um dia encontrará seu alvo correto.
Escrito por B.Machado às 16h13
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UM ESPETÁCULO PÚBLICO INESPERADO Tenho procurado manter a objetividade nestas observações sobre relacionamento, tratadas sempre de maneira quase abstrata. Entretanto, acabo de receber pela Internet imagens de um acontecimento chocante, que me estimulou a uma tomada de posição mais chã: uma moça, vestida de noiva declara-se (o som confuso da telinha não permitiu distinguir as palavras) a um rapaz, em público, melhor dizendo, no meio da rua. Eu disse chocante, mas no melhor dos sentidos. Manifestações de amor, mesmo destrambelhadas, são sempre bem vidas e emocionantes. Pelo visto, o rapaz não gostou, não digo da declaração, mas da publicidade. Não foi por timidez, já que ele se mostrou bem agressivo logo na sequência do caso, mas pela exposição pública. Num primeiro momento, chamado do interior de um estabelecimento comercial, ele veio feito um touro bravo, deu a bronca na “noiva” e saiu andando rápido pela rua, afastando-se do “espetáculo”. Depois, voltou e tentou fazer a moça embarcar no carro, naturalmente para ir para longe daquele escândalo (para ele; para quem assistia, foi uma beleza de espetáculo!). Ela resistiu um pouco, tentou argumentar, mas ele estava decidido: embarcou e ligou o motor do carro. Então, a noiva correu para outro lado do carro e também embarcou. Ora, o que aconteceu ali, naquele espaço público? Não digo o aspecto cênico, mas o confronto de objetivos, temperamentos e sensibilidades. A moça talvez tenha pensado na beleza do teatro espontâneo, ainda mais que foi alegremente aplaudida por várias pessoas, talvez algumas fossem suas amigas. Teatro é expressão de pensamento e emoção e, feito assim, no plano real, se torna mais emocionante. Ela talvez tenha sonhado muito com esse momento, que é muito mais que simplesmente diversão, é um desejo de transformar seu amor em algo vívido e mostrado. Mas o rapaz parece que anda por outros mundos, onde sobram seriedade e sisudez. Não sei se haverá continuidade nesse noticiário (afinal veio por um órgão da mídia), mas ele deixa um vazio em nossa atenção, cheia de curiosidade. Em primeiro lugar, a atitude do rapaz pode traduzir muitas possibilidades. Ele pode ser tímido ou simplesmente mal-humorado. Ele pode não estar muito inclinado ao casamento com a tal moça, pelo menos para o momento. Nesse caso, a moça pode ter “forçado a barra”, para ver se ele decide logo. Ou, pelo contrário, ele quer o casamento, mas sem muita publicidade. Ou a pior das situações (para ele): anda “pulando cerca” e essa exposição pública não ajuda nada em sua vida secreta. NB.- Quem tiver alguma notícia da continuidade dessa comédia, me conte, por favor!
Escrito por B.Machado às 16h52
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AS DIFERENÇAS CULTURAIS As sociedades diferem entre si muito mais do que se imagina. De modo geral, as pessoas pensam que essa diferença pode ser atenuada por um entendimento prévio, regras gerais de convívio, conhecimento da linguagem e respeito mútuo. Entretanto, isso é muito pouco, para um entendimento real. Apenas ajuda na convivência. Mas as diferenças continuam. E isso, no cotidiano, pode passar despercebido, mas se acentua, ou pode até levar a conflitos, nas ocasiões em que o “tempo esquenta”, isto é, quando se tem de enfrentar problemas realmente sérios. As diferenças de pensamento e comportamento podem ocorrer entre classes sociais, numa mesma cidade, entre bairros numa mesma cidade, entre habitantes de cidades de diferentes dimensões, ou de economia diferenciada (turismo, indústria, lavoura). Para as pessoas comuns, isso passa despercebido, mas profissionais em Psicologia, Psiquiatria ou Sociologia não cansam de mencionar o assunto, mostrando os desequilíbrios de entendimento, a partir dessas diferenças que parecem às vezes muito sutis, mas podem dar origem a sérios atritos, ou conflitos íntimos para indivíduos mais sensíveis. Profissionais de venda ou de relações públicas não deixam de lado o interesse pelas peculiaridades individuais, pois isso pode ser decisivo no exercício de seu trabalho. Para o cidadão comum, essas diferenças devem ser levadas em conta quando, por quaisquer razões, mudam de endereço, de emprego ou de situações de família, como casamento ou, apenas, novos grupos de amizade. De modo geral, entretanto, as pessoas só mantêm relações decisivas por razões afetivas ou profissionais, incluindo política, por isso, no geral, não se preocupam, com os diferentes modos de vida da vizinhança, o que, entretanto, não deixa de fazer parte de seus comentários ou pensamentos. E, aqui, é que surge o interesse por essas diferenças de modo de pensar, incluindo, ética, religião e, mesmo, fatos do cotidiano. Parte desse interesse ou curiosidade surge do fato de que cada indivíduo acha que seu ponto de vista, suas opiniões e visões de mundo são as únicas, quando não as “melhores”, entre as que conhece. Basta um simples raciocínio para botar abaixo essa certeza: o simples fato de cada um achar-se de posse da razão, num desentendimento basta para evidenciar uma gritante contradição. Mas, por uma questão de amor-próprio, é muito comum que as pessoas “não deem o braço a torcer”! Então, se conclui que a razão principal dos desentendimentos não são propriamente as ideias que, afinal, podem ser mudadas, mas a vaidade e o autoconvencimento que impede essa mudança. Essas inclinações derivadas de uma excessiva autocomplacência de modo geral estão na raiz dos conflitos humanos. Tudo isso que acabamos de dizer passa ao largo das preocupações diárias do cidadão comum. Apenas quando fatos extraordinários entram na “alça de mira” é que as pessoas descobrem como ignoram seus semelhantes, e então se descobrem “diferentes”. Veja-se o caso de crimes, como aquele da moça que ajudou seu namorado a matar seus próprios pais; recordem-se das perseguições raciais, em meados do século passado, na Europa; preste-se atenção no comportamento de terroristas que se explodem num aglomerado humano, para fazer o maior número possível de vítimas, entre seus “inimigos”. Nessas horas é que as pessoas se perguntam: - Mas, o que pensa um indivíduo desses?
Escrito por B.Machado às 15h26
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AS MÚLTIPLAS FACES DA PERSONALIDADE Reencontrei uma pessoa que sofreu um revés, na aparência e no comportamento, por conta de uma intervenção cirúrgica mal sucedida. O primeiro impulso foi renovar a relação, perguntar como está, etc. Logo, a inibição da prudência: do jeito que está, ela continua a mesma pessoa que era? A resposta, qualquer um adivinha, é “não”! Nós mudamos, dia-a-dia, “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, na segunda vez, mudou o rio e mudou o sujeito”, já dizia Heráclito, o filósofo grego. No caso da pessoa acima referida, o problema é mais grave: a mudança foi cruel e radical. Ela nos percebe de maneira diferente, nós a percebemos de maneira diferente; ela sabe que estamos pesarosos pelo seu estado, nós sabemos que ela sabe, e assim por diante. É um conjunto de reações simultâneas, de lado a lado, que perturba o relacionamento, fazendo com que, além de nunca recuperar o tom antigo, piora ou só altera os contatos amigáveis, tudo dependendo de uma série de fatores. É por essa dependência de fatores que hesitamos, porque não sabemos por onde vão caminhar os pensamentos, os sentimentos, a percepção de cada um. Esse é um caso especial, mas continuamente somos postos diante de situações que tais, da mudança de condições de uma pessoa que, de alguma maneira, altera o sentido de seus relacionamentos anteriores. Apenas para citar as mais comuns: o casamento, o enriquecimento ou empobrecimento, um diploma importante, uma promoção no emprego. Além disso, há o caso de alterações psicológicas na pessoa, por conta de problemas em sua turma de amigos, ou na sua família. Isso mostra como nossa personalidade não é uma peça de aço, mas um conjunto plástico, prestes a mostrar suas múltiplas faces ou possibilidades. Claro que não se trata de uma coisa fatal, mas a probabilidade existe. E a maioria das pessoas, com um pouco de exame de consciência, deve concordar com isso.
Escrito por B.Machado às 14h27
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OS NÍVEIS E OS OBJETIVOS DO RELACIONAMENTO O grande problema dos relacionamentos humanos é que eles, consciente ou inconscientemente, nunca ocorrem de maneira desinteressada. Mesmo o relacionamento que, aparentemente, não tem um objetivo além dele próprio, é iniciado pela necessidade de comunicação, isto é, a fuga da solidão. No mais, as pessoas podem se relacionar por sexo, negócios, política ou reforço de opiniões. Fazendo um voo histórico para contemplar os relacionamentos mais antigos, vemos que a causa principal daqueles que ficaram registrados na literatura patriótica ou religiosa era a defesa ou o ataque. Mesmo aquilo que parecia reunião em torno de um deus, na verdade era uma maneira de os indivíduos comungarem numa crença para se sentirem protegidos no grupo maior. Nas sociedades modernas, os grupos humanos promovem festas para fortalecer seus múltiplos relacionamentos. O mesmo objetivo têm os clubes e as sociedades formais, como Rotary, Lions e maçonarias. Enfim, o homem pode ser um animal social, mas essa condição é mantida a partir de uma série de providências. Está claro que essa situação é resultado das novas modalidades de vida, surgidas com o progresso histórico. Na pré-história, possivelmente o relacionamento, afora aquele biológico, da família, era feito em função da defesa, do ataque, da caça e, finalmente, já no início da civilização, na faina agrícola. Bem, mas isso é a gênese do relacionamento humano. Como tal, já está arraigado e costumeiro, em todas as sociedades, mesmo as pouco civilizadas. A preocupação do ser humano moderno vai além desse primarismo, porque as sociedades assumiram comportamentos mais complexos e as pessoas, para viverem bem, exigem algo mais que um relacionamento erigido em torno de sobrevivência ou crença. Para além dos agrupamentos em cidades e nações, há os relacionamentos que, nem por serem menores em número de pessoas, são menos importantes, em termos de vida saudável e, mesmo, de normalidade psicológica. É assim que se formam os grupos de amigos e, em nível mais íntimo, os casais amorosos. Neste nível de relacionamento não vigem as leis da simples Sociologia, mas nos aprofundamos nos níveis da Psicologia, porque entram em ação as condições mentais de cada indivíduo, que dizem respeito ao temperamento, à busca de objetivos, à formação educacional e à imperiosa necessidade sexual. Entretanto, estes fatores, por mais complexos que sejam, não agem e influenciam independentemente daqueles dados acima assinalados, ligados aos grupos maiores, à comunidade, ao povo, à civilização.
Escrito por B.Machado às 19h35
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AMIGOS E “AMIGOS” Infelizmente não há um sinalizador de amizade, uma espécie de campainha de alarme, que soasse sempre que encontrássemos um(a) companheiro(a) que realmente merecesse a denominação de “amigo(a)”, ou, pelo contrário, uma campainha para nos advertir que topamos com uma pessoa falsa. Passamos pela vida colecionando relacionamentos, mas poucas vezes sabemos com quem estamos lidando. Se estamos bem de vida, principalmente se estamos bem de finanças, ou temos algum poder, no meio em que vivemos, estamos sempre rodeados de “amigos”. Um velho ditado latino expressa bem esse dilema da amizade/inimizade: “amicus certus in re incerta cernitur”, isto é, o amigo certo é aquele que se manifesta quando estamos em dificuldade. Mas, mesmo tendo essas lições de vida, não podemos, nem devemos dispensar todos aqueles que se aproximam de nós, mesmo desconfiando de suas intenções, ou da hipocrisia de alguns. Pessoas de posse ou poder estão sempre rodeadas de pessoas, sabem que a maior parte delas está ali para compartilhar de seu conforto ou prestígio, mas não se preocupam com isso: a “corte” também faz parte de seu exibicionismo de poder. Mas para uma pessoa de boa percepção e formação moral, aquele séquito de puxa-sacos é chocante. Mas isso faz parte da vida. A humanidade não é composta de “santinhos”; se fosse, talvez a vida não seria tão divertida! O chamado “cordão dos puxa-sacos” faz parte da comédia da vida. Mas como viver a vida sem dúvidas e decepções em nossos relacionamentos? Não há nada a fazer. A vida é aventura, a vida é incerteza, a vida é um “rasgar-se e costurar-se”, como disse Guimarães Rosa. E é nisso que está o seu valor, a aventura de não saber o dia de amanhã, a incerteza pelos encontros com outras pessoas, a alegria das boas descobertas e a decepção, que afinal é melhor mestra do que a satisfação.
Escrito por B.Machado às 10h53
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AS DIFERENÇAS CULTURAIS Tanto quanto o vestuário, o cardápio ou a linguagem, também o relacionamento entre homens e mulheres tem variação geográfica. Um depoimento do escritor Affonso Romano de Sant’Anna, posto em seu Blog no começo de junho, desde ano de 2013, dá conta de curiosos comportamentos de cidadãos africanos, narrados pelo embaixador brasileiro Alberto da Costa e Silva. Fizemos um resumo de cada relato: - A estória do chefe que tinha muitas mulheres, mas uma delas deveria estrangulá-lo quando ficasse impotente; - O chefe da tribo que ia visitá-lo e deixava as suas seis mulheres esperando no carro; - A arquitetura da casa do chefe da tribo, com uma sala de 7 portas, cada uma delas comunicando a um dos quartos de suas 7 mulheres. - A mais velha do clã é que escolhia a esposa mais nova. - E a mulher que disse a Verinha (esposa do embaixador): Não sei como vocês ocidentais aguentam. Um homem dá muito trabalho, o homem tem que casar com várias mulheres.....
Escrito por B.Machado às 19h32
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OS MITOS Um conto do escritor inglês Somerset Maugham narra a história de um pastor evangélico, meio fanático, que depois de fazer admoestações públicas contra uma prostituta, é pego cometendo os mesmos pecados que condena. Essa história é mais ou menos a repetição de várias outras narrativas, ficcionais ou históricas, que tentam induzir os leitores ou ouvintes à convicção de que os censores, muitas vezes, são piores que os censurados. Há casos reais, sim, desses fatos, mas não se pode erigi-los em modelos corriqueiros de comportamento, como insinuam seus intérpretes. Assim como esse, há muitos outros mitos criados para difundir e defender certas ideias ou modos de agir. Uma história, real ou fictícia, é sempre um bom artifício para reforçar conselhos de ordem moral ou religiosa. Não é à toa que as pregações cristãs começam, quase sempre, por uma narrativa ou parábola. Entretanto, para quem analisa os fatos humanos e se baseia numa ciência positiva, essas narrativas têm um valor relativo, isto é, não servem para toda e qualquer situação. A narrativa do escritor inglês, que não tenta se erigir em parábola, mas, mesmo sem intenção, faz as vezes dela, é apenas uma história, que, por isso mesmo, não pode ser elevada à condição de exemplo para todo comportamento humano. Quer dizer, não é o fato de alguém pregar contra alguma coisa que ele vai ser levado a fazer isso mesmo que renega. Enfim, o que queremos dizer é que as ações, intenções e pensamentos humanos nem sempre seguem padrões que possam ser exemplificados por uma história ou parábola. Está claro que, adotando certos métodos comparativos, podemos construir padrões de comportamento, a posteriori, isto é, depois que acontecem, mas nunca como previsões de comportamento. Fazendo uma comparação, alguns tipos de dribles ou passes, num jogo de futebol, podem ser repetidos e darem bons ou maus resultados, mas isso não é fatal, pois todo time de futebol tem outro de potência igual ou semelhante, jogando na direção contrária. Queremos dizer, com isso, que, na vida, podemos agir de um modo programado que se provou eficiente, mas isso não quer dizer que sempre vai dar certo, pois outros fatores externos podem entrar em ação concomitantemente.
Escrito por B.Machado às 17h50
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